Prólogo — O Preço de Lembrar
Antes de haver nomes, havia a cidade. E antes da cidade, havia a árvore.
Ninguém sabe dizer ao certo quando as cerejeiras começaram a crescer daquele jeito — carregando memórias em vez de apenas frutos, guardando sentimentos em vez de apenas seiva. Há quem diga que foi um milagre. Há quem diga que foi um acidente do tempo, uma dobra que nunca deveria ter existido. E há uma pessoa, só uma, que sabe a resposta verdadeira e a guarda como se fosse a última pétala de todas.
A regra é simples, e por isso mesmo cruel: uma memória cuidada floresce. Uma memória esquecida murcha, escurece nas bordas, e cai. Os moradores da cidade cresceram entendendo isso do mesmo jeito que entendem a chuva — sem precisar de explicação, só de respeito. Não se fala sobre a árvore ancestral na praça central. Não se conta às crianças o que acontece quando a última flor cai. Sabe-se apenas que, quando isso acontece, alguém é apagado — não da terra, mas de tudo que um dia o amou.
O que os moradores não sabem — o que ninguém, exceto uma mulher de cabelos prateados que nunca envelhece, chegou a compreender por inteiro — é que o ciclo não é uma maldição sem dono. Todo ciclo tem alguém que se beneficia dele. Toda fome tem alguém que a alimenta em segredo, e que aprendeu, ao longo de gerações, a se fazer passar por vítima do mesmo destino que na verdade administra. E o restante você descobre :)
| Número de páginas | 100 |
| Edición | 1 (2026) |
| Idioma | Portugués |
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