PRÓLOGO
O Ano em que o Desejo Foi Queimado
Eu nasci no ano em que o último livro foi queimado publicamente.
Não lembro das chamas em si. Lembro do cheiro: papel antigo carbonizado misturado com alfazema sintética — o perfume oficial da Pureza que eles borrifavam para “neutralizar” o odor do passado. Lembro da multidão cinza em fileiras perfeitas, cabeças baixas, respirando em uníssono como um único organismo. Lembro da mão da minha mãe apertando meu pulso esquerdo até sangrar, cravando as unhas como se quisesse tatuar em mim a palavra que ela sussurrou antes de ser arrastada: “Kiliam.” Meu nome verdadeiro. Não o número 47-Δ-319 que o Comitê me deu no dia seguinte. Kiliam Voss. Ela me deu isso antes de desaparecer para Reeducação. Me deu também um pedaço de papel amassado com uma única palavra escrita à mão, tinta borrada: desejo.
Freud chamaria aquilo de cena primária absoluta. A perda do objeto materno como castração simbólica inaugural. O fogo não queimou só livros — queimou o significante do desejo, o significante do amor, o significante da mãe. Lacan diria que ali nasceu a falta constitutiva coletiva: todos nos tornamos sujeitos barrados, condenados a circular em torno do objeto a que o Grande Outro (o Comitê de Pureza) jamais nos deixará alcançar. Winnicott diria que o papel “desejo” era meu primeiro objeto transicional — um pedaço de mãe que eu podia carregar, cheirar, tocar, sem que o sistema o arrancasse imediatamente.
Mas eu era pequeno demais para teoria. Só sentia
| ISBN | 9798251746624 |
| Número de páginas | 235 |
| Edición | 1 (2026) |
| Formato | Pocket (105x148) |
| Acabado | Tapa blanda (sin solapas) |
| Coloración | Blanco y negro |
| Tipo de papel | Offset 80g |
| Idioma | Portugués |
¿Tienes alguna queja sobre ese libro? Envía un correo electrónico a [email protected]
Haz el inicio de sesión deja tu comentario sobre el libro.